Relatório publicado em julho mostra que há 50 profissões cujas vagas a Alemanha precisa suprir com estrangeiros. (Foto: Reprodução)

A Alemanha se prepara para dar um salto no recrutamento de profissionais estrangeiros qualificados para trabalharem no país. Entra em vigor em março de 2020 a nova Lei da Imigração Qualificada, que vai facilitar a entrada de trabalhadores graduados de fora da União Europeia e também com formação de nível técnico. Com o envelhecimento da população, o país já recruta profissionais no exterior nas áreas de engenharia, TI, medicina e, principalmente, enfermagem. Está nesta última a maior demanda. De cada cem vagas para enfermeiros geriátricos, há apenas 29 candidatos, segundo a Agência Federal do Emprego do país. E o Brasil está na mira da Alemanha para suprir essa demanda.

“Estamos recrutando nas áreas em que há déficit de mão de obra na Alemanha. Até aqui, tivemos uma boa experiência com o Brasil recrutando profissionais de TI, engenheiros e enfermeiros. Mas estamos fazendo pesquisas para identificar a que outras profissões poderíamos estender nossas atividades no país”, destaca Alexander Wilhelm, diretor executivo de Cooperação Internacional do ZAV, sigla em alemão para o escritório central de intermediação profissional e internacional do país.

Relatório publicado em julho mostra que há 50 profissões cujas vagas a Alemanha precisa suprir com estrangeiros. Além das três áreas já citadas, Medicina é outra frente de captação. Em 2016, 17,5% dos 82 milhões de alemães tinha mais de 65 anos. O governo estima que, até 2050, o número de idosos precisando de cuidados vai dobrar.

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A prospecção de brasileiros começou no fim de 2017. De lá para cá, diz Wilhelm, já foram recrutados no país 130 pessoas da área de TI, 120 engenheiros, 50 enfermeiros e um pequeno número de técnicos.

Uma parceria entre a Agência Federal do Emprego, o Instituto Goethe e a Câmara de Comércio Brasil-Alemanha busca profissionais formados em enfermagem desde 2018. Dois processos seletivos já foram realizados no Rio e um em São Paulo.

Os candidatos participam de uma palestra sobre o programa e passam por processo seletivo. Os escolhidos precisam mergulhar em um curso intensivo de alemão para, no fim, fazerem uma prova de certificação. No Rio, esse curso dura seis meses, exigindo dedicação exclusiva.

As despesas ficam por conta da empresa alemã contratante dos enfermeiros, que pode conceder uma bolsa de ajuda de custo aos selecionados.

“A Agência do Emprego alemã é procurada por empresas do país em busca de profissionais. Se não há como suprir a demanda no mercado interno, é iniciada a prospecção em outros países, contatando as faculdades locais de Enfermagem. No primeiro semestre, 27 profissionais do Rio concluíram o curso e foram para a Alemanha. Neste segundo semestre, temos 15 enfermeiros no curso”, destaca Susan Zerwinsky, vice-diretora do Goethe no Rio.

Curso intensivo de alemão

A carioca Ana Carolina Guedes, de 26 anos, formada em enfermagem pela UFRJ, passou na seleção realizada no Rio este ano. E se prepara para embarcar para a Alemanha no início de 2020. “Soube do processo em 2018, mas estava concluindo residência e pós-graduação, então só participei este ano. Comecei o curso intensivo no Goethe este semestre e deixei meu emprego. Recebo uma bolsa de € 250 (cerca de R$ 1.132) por mês. Sempre tive vontade de ir para fora porque não me vejo fazendo outra coisa e, aqui, acho que minha profissão não é valorizada”, diz ela, que mora com os pais em Brás de Pina, na Zona Norte.

Colega de Ana Carolina, Paula Barbosa, de 25 anos, que mora em Realengo, na Zona Oeste, é outra selecionada. As duas vão para a Clínica Fulda, que fica em Hessen: “Quando eu casar, não quero passar pelo aperto que meus pais passaram para criar os filhos. Eu precisaria ter ao menos dois empregos para oferecer boas condições a eles. Vou imigrar em busca de qualidade de vida”.

Irina Wein, diretora de Recursos Humanos da Clínica Fulda, explica que iniciou a busca por enfermeiros estrangeiros há um ano: “Não há no país enfermeiros suficientes para cumprir o previsto na portaria que estabelece a quantidade mínima desses profissionais para atender a determinado número de pacientes. Por isso, não só a Clínica Fulda busca enfermeiros no exterior, é uma tendência nacional”.

Entre 2017 e 2018, o número de vistos concedidos para brasileiros exercerem atividades remuneradas na Alemanha subiu 16%, para 2.207, diz o Consulado no Rio. A população alemã cresce a reboque da imigração. Perto de 25% são de imigrantes ou descendentes de estrangeiros.

Desde 2012, os imigrantes passaram a poder ter qualificação reconhecida na Alemanha. Foram criadas plataformas para orientar estrangeiros que queiram trabalhar ou estudar no destino.

É preciso ter vistos para estudar e trabalhar na Alemanha, havendo um só para quem quer buscar emprego no país. Os estudos são outra ponte. Ao concluir um curso superior ou de pós-graduação, o estrangeiro tem mais 18 meses de estadia, podendo trabalhar.

Profissões reguladas como Direito e Medicina demandam uma qualificação específica. Outras não, como gerente de negócios, especialista em TI e padeiro. Fundamental é ter proficiência no idioma alemão, que pode ser dispensada em algumas atividades de TI.

O Sul