Texto por Fernanda Mendes Sartori e revisão de Filipe Canavese em especial sobre o Pantanal.

A presença dos Guató já existia desde o sec. XVI em registros de viajantes e cronistas. Eles ocupavam praticamente toda a região sudoeste do Mato Grosso e as regiões de Mato Grosso do Sul e uma parte inclusa em terras bolivianas. Podiam ser encontrados nas ilhas e ao longo das margens do rio Paraguai, desde as proximidades de onde hoje conhecemos como Cáceres até a região do Caracará, passando pelas lagoas Gaíba e Uberaba e, na direção leste, às margens do rio São Lourenço.

Capitão Fernandez (Chico), com a família, Alto Paraguay, Terra Indígena Guató, Mato Grosso. *fonte: ISA – Instituto Socioambiental

“Atualmente, existem três núcleos Guató, um deles em Mato Grosso do Sul (aldeia Uberaba, Ilha Ínsua) e dois em Mato Grosso, nos municípios de Barão de Melgaço e Poconé. Nestes, encontra-se a Terra Indígena Baía dos Guató (aldeias Aterradinho do Bananal e Aterro São Benedito), juntos aos rios Perigara e Cuiabá. O terceiro núcleo, em Mato Grosso, fica próximo à Cáceres, no entanto ainda são necessários estudos antropológicos para identificar a população Guató que ali reside e delimitar o território por eles ocupado [dados de 2008].”

Por que apenas 3 núcleos? Primeiro que com a invasão dos Portugueses (sim! INVASÃO) ao que hoje conhecemos como Brasil, foram muitos momentos que não aconteceram de forma pacífica e amigável como está escrito em diversos documentos. Mas como vamos saber se isso é verdade ou não? Simples. Sempre quando você só achar informações de um lado da história, Questione. Onde estão os relatos dos povos originários nos documentos? Mas eles não sabiam português. Sim, não sabiam, então agora você entendeu como fica fácil dominar a história a partir do momento que dominamos a língua considerada “oficial” para registro. Simplesmente podemos acrescentar e excluir o que quisermos, por que afinal, ninguém iria lá perguntar para aquele povo se aquilo que aconteceu foi verdade ou não. Mas vamos aos fatos registrados então.

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Com as missões dos Jesuítas pelo Brasil e sua catequização, muitos indígenas foram dizimados a partir do momento que se rebelaram contra aquela forma de viver, pensar e cultuar. “Em 1633 os Guató são mencionados entre as nações de “índios infiéis” a serem submetidos às pregações dos padres da Companhia de Jesus.” Ou seja, para aqueles que não concordavam com as “novas regras” a punição normalmente era a morte. Assim o número de povos originários da região foi diminuindo, como os Paiaguás, que hoje estão extintos.

Antes da guerra do Paraguai, foi registrado em 1848 pelo Diretor Geral dos Índios da Província de Mato Grosso, Joaquim Alves Ferreira, um total de 500 Guató em todo o alto Paraguai. Mas, segundo os registros pós guerra, em 1894 foram registrados 29 índios na região, e em 1901 foi registrado o número de 46 Guató residindo na região de Bela Vista do Norte. Essa grande queda da população Guató deve-se pelo fato de eles terem sido afetados pela guerra do Paraguai, onde até foi registrado em 1876 por Couto Magalhães, presidente da Província de Mato Grosso durante a Guerra do Paraguai a colaboração dos Guató ao Exército Brasileiro. Devido a esse intenso contato com homens brancos pelo local onde habitavam, propagou-se doenças como varíola, que se intensificaram na região devida a ocupação não-indígenas do Alto Paraguai, que foi mais um agravante para os índios e sua única saída viável era mais uma vez se locomoverem de seus territórios originários

Em 1900, Henry Bolland comandou uma expedição de medição de terras às regiões do alto Paraguai e das lagoas e baías, contribuindo decisivamente para o conhecimento geográfico do território Guató. Assim nos anos entre 1940 e 1950 foi se intensificando o processo de expulsão desses povos da região quando o gado dos fazendeiros invadia o território dos índios, dificultando sua permanência, assim sua alternativa era migrar para outros pontos do Pantanal ou irem para as periferias de cidades como Corumbá e Dourados.

Devido a essa disseminação, os Guató foram considerados extintos pelo Serviço de proteção aos Índios – SPI. Mas no início dos anos 70 foram identificados alguns indígenas por missionários da equipe indigenista de Corumbá (Mato grosso do Sul), vivendo na periferia da cidade. Assim a Funai deu inicio ao processo de identificação dos Guató, e foram estimados 243 indígenas na época. Nesse momento surgiu a oportunidade de irem à luta pelo direito a terras que já pertenciam a eles. Hoje parte da Ilha Ínsua pertence ao povo Guató, conseguindo de volta sua terra, ou parte dela, para poderem se reorganizarem de forma social e cultural.

Terra Indígena (TI) Baía dos Guató, Localizada em Barão do Melgaço (MT). Foto: Lalo de Almeida

Com todo o processo de povoamento da região do Pantanal muitos grupos vivem atualmente na região. São 3 terras indígenas (2 Borroro e 1 Guató), 5 comunidades quilombolas, 13 comunidades ribeirinhas, em média 40 comunidades pantaneiros, 12 comunidades de agricultores familiares, entre outros. No total são mais ou menos 3 milhões de habitantes no Pantanal. São diferentes culturas, costumes, vivendo e compartilhando da mesma região.

O grupo Guató foi citado apenas como um dos vários exemplos de povos originários da região. Queríamos com esse texto tentar ilustrar um pouco da parte da história da construção do Pantanal de hoje. Precisamos saber os diversos lados dessa história, pois o perigo de uma história única é ficarmos aprisionados apenas do lado daqueles que na grande maioria das vezes é o opressor. Ao apagarmos a história desses povos, estamos automaticamente apagando a nossa própria.

A dificuldade de encontrarmos registros sobre as histórias dos povos originários se deve também ao fato de termos apenas 305 línguas catalogadas (pelo IBGE 2010), e uma média de 3000 línguas existentes. Assim, a história sobre a cultura, modo de vida e tradições de muitos povos foi se perdendo ao longo do tempo. Para quem quiser saber mais sobre esse trabalho árduo, existe uma publicação linda da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

E lembrando que precisamos dizer NÃO ao Marco Temporal. O Marco Temporal significa matar a memória daqueles que deram a vida por liberdade de seus parentes. A garantia dos direitos dos Povos Indígenas ao território e a vida são obrigatórios e precisamos falar sobre isso.

Povo Guató. Foto: Lalo de Almeida

Com o passar das décadas, tivemos o aumento do movimento de pessoas vinda de outros estados do Brasil, com incentivos do Governo para “desbravar” algumas regiões, entre elas o Centro Oeste. Primeiro temos a “Marcha para o Oeste”, por volta do anos 40 e 50, que foi um projeto desenvolvido por Getulio Vargas durante a ditadura do Estado Novo com o objetivo de promover o desenvolvimento populacional e a integração econômica das regiões Norte e Centro-Oeste do país. Não obteve grandes resultados, uma vez que faltou apoio e incentivos. Outro grande momento de povoamento da região foi no final dos anos 80 com a expansão da pecuária, para lidar com o crescimento do rebanho bovino de corte. Assim passaram a ocupar na região do Pantanal uma nova definição de Povo Pantaneiro.

Para Espindola (2010) entende-se por “homem Pantaneiro o peão que vive isolado nas fazendas de gado, descendente das miscigenações étnicas e que possui quase uma parceria, um “cumpadrio”, com o proprietário, que só se observa nas relações de trabalho, longe de passar por perto da divisão eqüitativa de rendas ou social.”

Precisamos então separar o Homem Pantaneiro que entende do bioma, das chuvas e secas, dos animais e plantas da região, só de observar, sem nunca ter tido acesso a estudo ou conhecimento de faculdades e escolas, daqueles que “estão ali” para mandar, lucrar com o desmatamento, com as queimadas, e que só pensa em aumentar o próprio patrimônio bancário.

Em um artigo publicado em julho de 2018 por Mauro Henrique Soares Silva e Messias Modesto Passos pela Universidade Federal do Ceará, onde foram analisados discursos de Pantaneiros que habitam o Pantanal da Necholândia a mais de 20 anos, conseguimos perceber como essas pessoas tem um olhar único sobre a terra que habitam. Em um dos trechos do artigo foi perguntado aos Pantaneiros sobre o aumento das pastagens e desmatamento na Região.

Queimadas criminosas no Pantanal observadas pelo povo pantaneiro. Foto: Lalo de Almeida

“… tão dismatando né. Já entrou um monte de pessoal de São Paulo, Campo Grandi aqui, e tão dismatando né. Os fazendeiros de antigamente nem gostava que botava fogo, eles até queimava, mais num gostava que derrubava a mata. Hoje, ta proibido queima, mais tão desmatando pra cria gado. Vai dirrubando, derrubando, então, ta mudando o pantanal, caba secando tudo, onde desmata caba secando tudim né. (Hermínio E., 80 anos de idade e 80 anos no Pantanal).”

Percebeu-se nessas entrevistas que a relação do verdadeiro Homem Pantaneiro com o Pantanal é de observação e respeito, eles entendem que se a devastação continuar, o Pantanal, como deve ser em sua verdadeira essência, deixará de existir. Em muitos trechos desse artigo eles citam as mudanças já percebidas nas inundações, no tipo de vegetação que passou a mudar, na falta dos animais que antes habitavam a região.

Podemos observar que a conscientização da relação com o Pantanal deve ser necessária para os Proprietários de Fazendas, uma vez que ao olhar para o local como algo comercial, se esquecem de toda uma história cultural e de tradições da região e das pessoas que ali dependem de cada época de alagamento. Se ficarmos apenas no pensamento do desenvolvimento econômico, esquecemos que se o fluxo natural ali acabar, então não teremos desenvolvimento algum.

O Pantanal não é para ser mexido, ainda mais por quem não o conhece ou entende. É um bioma que acolhe plantas migradas de outros biomas e consegue se adaptar a isso. Recebe águas infinitas. Seu solo não é pobre. Pobre somos nós em não entendermos nem a nós mesmo e queremos ainda meter a mão em uma natureza tão perfeita e bela. Que é autossuficiente por si só. Pobre é quem queima, pobre é quem planta soja e derrama em seu solos e águas toneladas de agrotóxicos, contaminando todo um ciclo de vidas.

Foto: Lalo de Almeida

Dito isso, eu fico com a simplicidade dos que observam a vida ao seu redor com um dos trechos do artigo antes citado, quando foi perguntado sobre a identidade pantaneira.

“minha lida é isso aqui. Eu gosto muito de vivê aqui na Nhecolandia. Minha vida é essa aqui. Pra mim é uma maravilha se levantá aqui e vê uma paisagem dessa aqui. Vê outro ar né…Aqui se amanhece e se escurece com a mesma paisagem. Tranquilidade de num te ninguém pra mexer com você ….só preocupá com seu serviço e nada mais né (Armindo S., 61 anos de idade e 23 anos no Pantanal).”

O nosso querido revisor e editor Felipe Canavese entrevistou o ator, diretor e dramaturgo Amuri Tangará. Amauri diz que nunca viu uma queimada igual a essa no Pantanal, nunca houve algo nessa proporção, quando ele estava filmando a série “Pantanal e outros bichos” em 2017, no mês de Agosto que é considerado a época da seca e possíveis incêndios, ele e sua equipe não encontraram nenhuma fumaça ou foco de queimadas.

Quando questionado sobre qual mensagem ele deixaria para as comunidades pantaneiras ele responde:

“…Coragem para enfrentar essa tragédia. Que é uma tragédia anunciada. Que é uma tragédia que a gente sabe que tá sendo planejado sabe! Esse fogo colocado, essas coisas todas. Somos o Estado que estamos na mão do Agronegócio…O que precisa acontecer agora é que NENHUMA área queimada até agora, sabe, fosse vendida ou entregue para outras pessoas. Por que eu tenho certeza que agora vão se aproveitar disso e vão entrar lá com soja, com gado e vão acabar com nosso Pantanal… Por que o dia em que o Pantanal acabar, que o Pantanal secar, toda essa região vai ser impossível ter vida nessa região toda.”

Ainda diz que “espero que todo o seguimento tanto do poder público, como também da sociedade tomem atitudes severas com relação ao que aconteceu esse ano com o Pantanal. Se cria uma Lei onde se proíba AGORA de se plantar qualquer coisa em terras queimadas do Pantanal. Que se crie uma Lei que obrigue em 5 anos de se recuperar todas as nascentes dos rios que irrigam o Pantanal, que o agronegócio acabaram com todas. Aqui na minha região de Chapada dos Guimarães, eu conheço mais de 100 nascentes aqui MORTAS, sabe, onde estão plantados soja em cima das nascentes. Ou se cria uma Lei, e essa Lei é pra valer. Por que o problema todo nosso é o Poder Judiciário, não adiante nada, nossas multas ambientais são todas perdoadas, nós o sistema Judiciário mais corrupto do sistema solar, então não tem como confiar nisso, tem que ser a sociedade mesmo, ir pra rua, pro GRITO, todos NÓS…”

Para finalizar esse texto deixamos uma obra de Valdemir Gomes dos Santos.

“O habitat do “Poeta” está sendo devastado.
Está virando deserto onde antes… Alagado!
Os animais rastejam para não ser… Esteirado.
As matas… Grandes serpentes, depois viram granulado.

O paraíso natural está virando deserto.
A mata… Fornos, fumaça ofusca o amanhecer.
As vazantes evaporam, água é… Vegetação.
Manadas de animais sedentos… Em procissão.

A beleza pantaneira existe… Em cartão!
A vida do paraíso… Em grande transformação.
A planície é fornos, montanha; corixo é… Areão.

Animais morrem de sede em meio à imensidão
Pantanal está deserto… Sem fauna e vegetação.
Vida é… Fileira em leira, madeira, fornos, carvão.”

Midia Ninja