Ao CB.Poder, secretário de Saúde garantiu que a capital tem condições de enfrentar uma possível segunda onda da covid-19 e afirmou que o GDF pode investir na imunização da população, caso o Executivo federal não forneça o produto. Ele fez um balanço sobre as cirurgias eletivas

Em entrevista ao CB.Poder, parceria da TV Brasília com o Correio Braziliense, o secretário de Saúde do Distrito Federal, Osnei Okumoto, analisou, ontem, o cenário da saúde pública da capital em meio à pandemia de covid-19. Segundo ele, o Governo do Distrito Federal (GDF) está equipado para uma eventual segunda onda de pandemia e complementou: “caso haja algum contratempo, estaremos preparados para a aquisição da vacina e poder utilizá-la na nossa população”.

A pasta trabalha, atualmente, em uma pesquisa epidemiológica para avaliar a quantidade de pessoas que tiveram contato com o vírus. Osnei garantiu que a secretaria está abastecida de testes para quem estiver com sintomas.

O secretário de Saúde avaliou a atuação da rede pública em relação às cirurgias eletivas, que chegaram a ser suspensas no início da pandemia, e às cirurgias cardíacas-pediátricas, no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF), que tem recebido intimações judiciais pelo descumprimento do cronograma de cirurgias.

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A grande preocupação, atualmente, é a questão da segunda onda da pandemia. Vemos que na Europa isso é uma realidade. Como o GDF está se preparando?

Nós não temos uma vacina e não temos um medicamento eficaz no combate a esse vírus. Nós trabalhamos em cima dos comportamentos da transmissão do vírus no país, aqui, no Distrito Federal e, também, em outros países, principalmente, da Europa, onde a gente observou, no princípio, uma escalada muito alta de transmissão do vírus formando um pico e, logo em seguida, esse pico diminuindo. E, aqui, em Brasília, principalmente, a gente teve o pico, depois uma manutenção de um platô que perdurou por mais de 30 dias. Isso nos traz uma diferença em relação às transmissões. E, temos características de climas diferentes. Na Europa, retornou a segunda onda no período do outono para o inverno e, aqui, a gente entra, agora, no período do verão. Mesmo assim, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, no final do mês de outubro, reuniu a equipe e elaboramos dois métodos diferentes para iniciar o combate a uma segunda onda. A primeira delas é o inquérito epidemiológico que nós estamos realizando juntamente ao Sesc (Serviço Social do Comércio), que participa com o pessoal e com a doação de kits de testes rápidos; e à Subsecretaria de Vigilância em Saúde do Distrito Federal, na elaboração desse inquérito. Nós vamos às 34 regiões administrativas e sorteamos 230 pessoas por cada RA para que elas possam realizar os exames. Então, a gente define se essas pessoas apresentam anticorpos de imunidade ou não. Ou, se apresentam anticorpos do início da infecção. Com isso, a gente poderá dizer como o vírus caminhou, qual o comportamento atual e como será daqui para frente.

Fica mais fácil tomar decisões a partir dessas informações?

Fica muito fácil quando a gente tem essa pesquisa realizada. Por outro lado, nós trabalhamos com o Ministério da Saúde, conseguimos testes rápidos junto à Fiocruz. Disponibilizaremos 150 mil testes nas 172 unidades básicas de saúde (UBSs) do Distrito Federal. Então, todas as pessoas que tiverem sintomatologia ou tiveram contato com alguém que tem a covid-19 poderão realizar os seus exames. Quando esses testes derem positivos, nós monitoraremos esses pacientes para verificar se eles necessitam de internação. Como isso vai ser observado? Nós temos 600 oxímetros distribuídos na rede e analisaremos a saturação de oxigênio desses pacientes. Se eles estiverem com a saturação baixa ou baixando, a gente vai encaminhá-los para uma unidade hospitalar nossa para que possam ser acompanhados. Caso eles não tenham sintomatologia e tenham uma saturação boa, serão encaminhados para casa e orientados a ficar em isolamento por 10 dias.

O governador afirmou que, se tiver uma segunda onda, o sistema de saúde tem capacidade para reagir a esse acontecimento. A gente pode ter essa segurança, de fato?

Hoje, nós temos, no GDF, 407 leitos de UTI (unidade de terapia intensiva) e 311 leitos de enfermaria, todos disponíveis para atender pacientes com covid-19. O que a gente tem, nesse momento, na Sala de Situação, é que 45% desses leitos estão ocupados. Então, estamos em uma situação confortável. Tivemos a desmobilização de leitos. Hoje, nós temos 2.712 leitos de enfermaria não covid e 411 leitos de UTI não covid. Também, temos 541 leitos de emergência para atendimentos não covid. Então, estamos em um momento, ainda, sob controle, em relação aos leitos disponíveis. E, logicamente, a gente tem o sonho, lá na frente, de que esses 407 leitos de UTI de covid passem a ser de não covid brevemente, quando a gente tiver a vacina. Então, teremos leitos disponíveis para atender todos os pacientes do Distrito Federal e do Entorno.

No Governo Federal, houve uma polêmica em relação à questão da vacina, ainda existe uma dificuldade para definir o que será feito. O GDF está preparado para tomar a frente nisso, teria como fazer a compra dessas vacinas por conta própria?

Caso haja necessidade da população do GDF ter uma vacina disponível, tomaremos a iniciativa de fazer aquisições das vacinas. Mas, isso, caso haja uma possibilidade muito remota, de não estar disponível para nós. Apostamos muito na organização do Ministério da Saúde e sabemos que eles estão fazendo um trabalho excelente. Mas, caso haja algum contratempo, estaremos preparados para a aquisição da vacina e poder utilizá-la na nossa população.

Em relação a outras doenças, como estão as cirurgias no DF?

O DF continua realizando cirurgias normalmente, apesar de termos solicitado uma paralisação nas cirurgias eletivas em decorrência da utilização de grande parte dos medicamentos para a intubação de pacientes com covid-19. Esse medicamento faltou no mundo inteiro, mas a gente continuou realizando as nossas cirurgias de acordo com a necessidade. Até o final de agosto, realizamos 44 mil cirurgias eletivas no Distrito Federal. No ano passado, fizemos um trabalho intensivo para cirurgias eletivas e realizamos 67 mil operações eletivas. Se a gente fizer um levantamento de utilização de cirurgias que não necessitam de intubação dos pacientes, chegaremos a 66 mil, até 31 de dezembro. Então, estará bem compatível com o ano passado, mesmo tendo pandemia. São 44 mil cirurgias importantes, que foram realizadas dentro da Secretaria de Saúde.

Recentemente, houve uma grande preocupação em relação ao ICDF com a cirurgia de algumas crianças. Como está a situação hoje?

Nós participamos, desde a nossa volta, no final de agosto, de várias reuniões com o Ministério Público, com a Defensoria Pública, com o Tribunal de Justiça, porque nós tínhamos um inquérito civil em andamento e fizemos várias adequações em relação às cirurgias cardíaco-infantil, que é o que mais nos preocupa no momento. Estivemos com alguns cirurgiões cardíaco-pediátricos e de UTI para que a gente pudesse ter algumas resoluções. Fizemos o pagamento de R$ 3,5 milhões para o ICDF, para que eles não parassem. E, descobrimos que a gente poderia oferecer alguns insumos necessários para que as cirurgias pudessem ser retomadas. Essa lista será encaminhada, hoje (ontem), para a Secretaria de Saúde e disponibilizaremos insumos básicos para as cirurgias cardíacas do ICDF. A nossa equipe está toda preparada para que a gente possa atender às solicitações judiciais, assim como dessas 100 crianças que estão aguardando cirurgias.

Correio Braziliense